Ações de dividendos podem disputar com juro real de 7% no Tesouro? Compare

Com os títulos do Tesouro IPCA+ oferecendo prêmios reais entre 6,8% e 7,4% ao ano, o investidor brasileiro se depara com um dilema: ainda vale a pena correr o risco de investir em ações para buscar um retorno via dividendos (dividend yield) semelhante ao da renda fixa?
A resposta curta que especialistas deram ao InfoMoney é: sim. Mas há ponderações importantes sobre o preço atual dos papéis das empresas que pagam dividendos e como construir um portfólio equilibrado.
Além de representarem classes e emissores distintos, uma diferença importante entre os papéis é que o título público atrelado à inflação trava a rentabilidade real no momento da compra, enquanto a ação não entrega garantias de distribuição de proventos – apesar de, em alguns casos, serem extremamente previsíveis.
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“O argumento a favor das ações não está no yield (retorno) de hoje, mas no yield sobre o custo de aquisição daqui a cinco ou dez anos”, pontua Fernando Benavenuto, sócio da Anvex Capital. A lógica, segundo ele, é que o título público trava o retorno no momento da compra, enquanto a ação acompanha o mundo real.
Lucas Girão, economista da B7 Business School, complementa essa visão explicando que “o lucro que gera esse dividendo tende a ser reajustado pela inflação através do repasse de preços nos produtos e serviços da companhia”.
Na mesma linha, Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital, reforça que a ação bem selecionada entrega três camadas de ganho que o Tesouro não possui: dividendo, crescimento desse provento ao longo do tempo e o potencial de valorização do papel.
Contudo, Rafael Minotto, analista da Ciano Investimentos, faz questão de calibrar as expectativas em relação ao tempo de alocação: “o investidor precisa entender que ações não são renda fixa, mesmo que seja um setor estável. Quanto menor for o prazo que o investidor possui, menor deve ser o percentual em ações”.
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“Renda Fixa da Bolsa”?
Um dos grandes perigos da comparação entre Tesouro IPCA+ e ações de dividendos está na falsa sensação de segurança que atinge o investidor inexperiente. “Tratar ação de dividendo como equivalente à renda fixa é talvez o equívoco mais perigoso do investidor em ações”, decreta Benavenuto, lembrando que um “yield alto sem análise de cobertura de dividendo e sustentabilidade do caixa pode ser uma cilada”, refletindo apenas a queda do preço do papel por fundamentos deteriorados”.
Paulo Monteiro, Head da Gravus Capital, reforça o alerta de forma contundente.
“Na minha opinião, o maior erro do investidor é confiar que a empresa é ‘inquebrável’. No Brasil, o que não faltam gigantes de setor no cemitério da RJ (recuperação judicial).”
— Paulo Monteiro, Head da Gravus Capital
Os especialistas lembram que o dividendo não é uma obrigação contratual, mas uma decisão de governança diretamente dependente dos lucros. Além disso, no investimento em ações há o risco de destruição do capital principal, já que uma desvalorização severa no preço da ação pode anular completamente anos de rendimentos recebidos.
Dividendos mais caros
Com juros altos e muitas incertezas no radar, as empresas pagadoras de dividendos foram procuradas pelos investidores nos últimos meses, o que encareceu os papéis. “Energia elétrica e saneamento (segmentos historicamente associados ao pagamento de dividendos) foram os setores que mais se beneficiaram do fluxo estrangeiro no primeiro trimestre, exatamente pela característica defensiva que os define; isso comprimiu os yields em boa parte dos nomes do setor”, explica Benavenuto.
Girão alerta que um valuation esticado comprime o retorno pago ao acionista. “Se o preço sobe por otimismo do mercado e o dividendo permanece estável, o rendimento percentual cai. O desafio atual é encontrar empresas que ainda paguem um prêmio sobre o IPCA+ 7%”.
Ainda assim, o radar dos analistas capta distorções para quem faz uma seleção apurada. Belitardo destaca que o mercado não está uniformemente caro. Ele aponta companhias no setor elétrico com margens sólidas e proventos projetados acima de 9%, citando nomes como CPFL Energia (CPFE3) e Cemig (CMIG4). Fora do eixo das elétricas, o gestor enxerga forte assimetria em bancos focados no mercado corporativo, como o ABC Brasil (ABCB4) e o Banco do Brasil (BBAS3), em seguradoras com alto repasse de lucros, como BB Seguridade (BBSE3) e Caixa Seguridade (CXSE3), e no setor de logística e locação pesada, destacando Vamos (VAMO3), JSL (JSLG3) e Movida (MOVI3).
Além dos setores mais óbvios, Benavenuto nota que setores punidos pelo ciclo de juros altos, como telecomunicações e varejo de qualidade, apresentam múltiplos mais comportados e geração de caixa consistente. Minotto ressalta que, como as gigantes da Bolsa já encareceram, as maiores chances de captura de rentabilidade no atual momento estão escondidas nas empresas de menor capitalização de mercado – as small caps.
Alocação na prática
Para montar uma carteira geradora de renda passiva do zero no atual cenário, o consenso entre os especialistas foge do extremismo. A estratégia vencedora sugerida é equilibrar segurança soberana em uma ponta e crescimento real na outra.
Girão recomenda usar o Tesouro IPCA+ para “aproveitar a janela histórica de 7,4% de juro real e garantir o grosso da sobrevivência futura” com segurança, enquanto a fatia em ações fica focada em capturar a valorização e a distribuição orgânica dos lucros.
A recomendação de Girão e Benavenuto é concentrar a maior fatia do patrimônio, algo entre 60% e 70%, no Tesouro IPCA+. Para perfis mais conservadores ou em fase de construção de portfólio, Monteiro sugere iniciar com uma alocação de 90% em renda fixa e 10% em renda variável e “e ir aumentando a proporção de ações conforme for se sentindo confiante e entendendo os riscos”.
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