Bancos: inadimplência traz preocupação, mas não há cenário de deterioração sistêmica

InfoMoney Tech
Bancos: inadimplência traz preocupação, mas não há cenário de deterioração sistêmica

Investidores e governo mostram preocupação com a alta da inadimplência, mas os dados são mesmo alarmantes para os bancos?

Neste contexto, foram divulgados na véspera dados do Banco Central de março de 2026, que mostraram crescimento resiliente do crédito, mas com a piora na inadimplência de curto prazo acendendo um sinal de alerta, segundo aponta análise da XP Investimentos.

Houve leve aceleração no mercado de crédito em relação ao mês anterior, o que a XP vê como resiliente diante de um cenário macroeconômico desafiador.

Enquanto isso, a inadimplência maior que 90 dias recuou levemente no mês, atingindo 4,3% (versus 4,4% em fevereiro de 2026). Esse movimento reflete uma queda de cerca de 10 pontos-base (ou 0,1 ponto percentual) na comparação com fevereiro tanto em PJ (Pessoa Jurídica) quanto em PF (Pessoa Física). Por outro lado, a inadimplência de 15 a 90 dias aumentou levemente em 10 pontos-base, chegando a 4,3% no mês, com destaque negativo para o cheque especial em PF, cuja inadimplência nessa faixa subiu cerca de 300 pontos-base.

No segmento de Agro, foi um mês mais benigno, embora ainda pressionado, para a inadimplência acima de 90 dias, que atingiu 7,1% em PF (-50 pontos-base na comparação com fevereiro).

“Vale notar que a inadimplência de 15 a 90 dias nas linhas a taxas de mercado para PF ficou estável ante fevereiro, em 3,0%, após quatro meses consecutivos de queda”, avalia. “Ressaltamos que o 1T costuma ter um cronograma de vencimentos mais leve na carteira de agronegócio, o que nos leva a acreditar que ainda é prematuro adotar uma visão mais otimista sobre uma recuperação mais ampla do setor”, destaca.

No crédito consignado privado, março mostrou aceleração no crescimento do saldo mensal (+10,1% em março de 2026 versus +5,5% em fev/ereiro de 2026), após um fevereiro sazonalmente mais fraco). No entanto, a XP destaca que as taxas médias desse tipo de crédito recuaram no mês, atingindo 56,8% (versus 59,4% em fevereiro), enquanto a taxa de inadimplência subiu 20 pontos-base, chegando a 6,6%.

“Os dados de consignado privado sugerem alguns ventos contrários, com maior pressão de inadimplência e taxas médias menores parcialmente diluindo o efeito positivo do crescimento mais acelerado do saldo”, avalia a XP.

O Bradesco BBI, por sua vez, não vê níveis alarmantes na qualidade dos ativos dos bancos.

Leia também

Ibovespa Hoje Ao Vivo: Bolsa cai e perde os 188 mil pontos; PETR4 sobe

Bolsas dos EUA operam de forma mista

Santander (SANB11): custo de risco mais elevado pode impactar balanço?

Banco apresentará seu balanço antes da abertura do mercado na quarta-feira (29)

Os analistas avaliaram os dados recentes de qualidade de ativos do Banco Central, em um ambiente de juros elevados por mais tempo e aumento do endividamento das famílias.

O BBI ressalta que, desde a implementação da Resolução nº 4.966, em janeiro de 2025, os indicadores de crédito vencido acima de 90 dias deixaram de ser plenamente comparáveis ao histórico, dado que os empréstimos agora permanecem mais tempo em atraso antes de serem efetivamente baixados. O próprio Banco Central estima que cerca de 70% da alta observada da inadimplência decorre da mudança de metodologia.

“Diante disso, focamos na inadimplência em estágio inicial (15 a 90 dias), que permanece comparável e funciona como indicador antecedente de deterioração”, aponta a equipe de análise.

Os analistas veem desempenho relativamente melhor em cartões de crédito, financiamento de veículos, crédito pessoal, consignado e capital de giro de curto prazo, ainda que com leve piora. Em contrapartida, observam deterioração mais relevante em consignado do INSS, consignado privado, crédito rural, financiamento imobiliário e capital de giro de longo prazo, com alguns segmentos se aproximando dos picos do pós-pandemia.

“Nesse pano de fundo, cresce a relevância de um novo programa de renegociação para dívidas de pessoas físicas, voltado a clientes com renda de até cinco salários-mínimos (cerca de R$ 8,1 mil/mês), com foco em cartões de crédito, cheque especial e crédito pessoal sem garantia”, avalia o BBI.

Usando dados do SCR de fevereiro, esse público concentra uma carteira ativa de R$ 584 bilhões, composta por cartões de crédito (R$ 378 bilhões; 65%), crédito pessoal não consignado (R$ 189 bilhões; 32%) e cheque especial (R$ 17 bilhões; 3%). Dentro desse universo, há cerca de R$ 77,8 bilhões em créditos vencidos acima de 90 dias, o equivalente a 13,3% da carteira, sendo R$ 49 bilhões em cartões, R$ 25 bilhões em crédito pessoal e R$ 4 bilhões em cheque especial, além de R$ 95 bilhões em operações classificadas como estágio 3. “O corte de renda de até cinco salários-mínimos captura aproximadamente 69% do total da inadimplência dessas modalidades para pessoas físicas, com maior concentração nas faixas entre 1 e 2 salários-mínimos”, aponta.

Na visão do Bradesco BBI, a leitura dos dados sugere que a qualidade de ativos ainda não atingiu níveis alarmantes que justifiquem uma reação defensiva imediata em termos de concessão de crédito, embora os sinais de deterioração em alguns produtos exijam acompanhamento próximo nos próximos trimestres.

Neste cenário, a equipe do BBI vê que a análise da inadimplência em estágio inicial segue sendo a métrica mais apropriada enquanto o histórico de atrasos acima de 90 dias não volta a ser plenamente comparável.

“Quanto ao potencial programa de renegociação, entendemos que, se implementado nos moldes atualmente discutidos — com taxas limitadas a 1,99% ao mês, descontos que podem chegar a 90% e eventual uso de garantias do FGO e do FGTS —, ele tende a ser positivo para a liquidez do sistema, ao reduzir o estoque de créditos problemáticos e aliviar a restrição financeira das famílias de menor renda”, aponta o banco.

Dos cerca de R$ 113 bilhões da empréstimos em atrasos nessas modalidades para pessoas físicas, quase 70% estão concentrados justamente no público elegível, o que amplia o potencial de impacto do programa.

“Mantemos visão equilibrada: o cenário demanda vigilância reforçada, mas não aponta, até o momento, para uma deterioração sistêmica iminente da qualidade de crédito”, conclui.

The post Bancos: inadimplência traz preocupação, mas não há cenário de deterioração sistêmica appeared first on InfoMoney.