Como dólar em queda pressiona reservas, mas alivia inflação e juros

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Como dólar em queda pressiona reservas, mas alivia inflação e juros

Quando o dólar cai, a sensação geral é de alívio: viagens ficam mais baratas, produtos importados pesam menos no bolso e a inflação tende a dar uma trégua. Nas contas públicas, no entanto, essa movimentação exige uma matemática mais complexa. Trata-se de um jogo de soma e subtração: se, por um lado, há um impacto negativo no valor contábil das reservas internacionais; por outro, o alívio na inflação cria o ambiente ideal para a queda da taxa Selic.

Para compreender essa dinâmica, Marcos Piellusch, professor de finanças da FIA Business School, aponta duas vertentes principais de análise. A primeira é o impacto direto no balanço do Estado (ativos e passivos em dólar). A segunda é o impacto indireto na economia real, que transita pela inflação e deságua na taxa de juros.

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País ‘perde’ quando o real ganha força?

Na primeira vertente — a contábil —, o foco está na conversão de moedas. O Brasil encerrou 2025 com robustos US$ 358,23 bilhões em reservas internacionais. Como esse patrimônio está alocado em moeda estrangeira, qualquer valorização do real faz com que as reservas “encolham” no papel. No entanto, Piellusch lembra que a parcela da nossa dívida externa atrelada ao dólar também encolhe, gerando uma compensação natural nesse balanço.

Já a segunda vertente trata da dinâmica econômica indireta, que possui um impacto fiscal muito mais profundo. Um dólar mais barato reduz o custo de produtos importados, ajudando a ancorar a inflação. Com os preços sob controle, o Banco Central ganha espaço para reduzir a taxa Selic — o que, na prática, diminui o custo de manutenção de toda a dívida interna brasileira.

Por que manter o ‘seguro’ em dólares?

Se o impacto direto nas reservas pode parecer negativo em um primeiro momento, é preciso entender a função desse dinheiro. Esse montante não entra no orçamento do dia a dia do governo. Para Murilo Viana, especialista em finanças públicas, é vital lembrar que o objetivo das reservas não é gerar lucro financeiro, mas sim garantir segurança.

“A função primordial é oferecer garantia aos investidores e desencorajar apostas contra a moeda nacional”, explica Viana. É este colchão de liquidez que atua como um seguro contra crises externas, permitindo ao país adotar o regime de câmbio flutuante com tranquilidade.

O desafio, no entanto, reside no “custo de carregamento”. Para comprar dólares e formar essas reservas, o Banco Central emite dívida interna, remunerada pela Selic. Como o Brasil paga juros altos para manter ativos que rendem juros internacionais mais baixos, a valorização do real acaba por evidenciar o custo elevado de manter esse “seguro” na gaveta.

O antídoto contra choques externos

Apesar do custo, a resiliência do real tem sido determinante para a estabilidade econômica. Um relatório recente da Mapfre Investimentos destaca que a força da moeda brasileira tem surpreendido positivamente em 2026, impulsionada por avanços estruturais na balança comercial. O diferencial apontado pela instituição é que esse desempenho não depende apenas da alta nos preços das commodities, mas de uma expansão real no volume de bens e serviços exportados.

Na prática, essa moeda forte atua como um escudo contra pressões inflacionárias globais. Sendo o Brasil um grande produtor de petróleo, Murilo Viana ilustra o efeito amortecedor da taxa de câmbio: “Se o petróleo sobe no mundo em dólares, mas o real se valoriza, o impacto desse aumento no preço do combustível para o consumidor brasileiro é amenizado”.

Desconto na dívida pública

Para Piellusch e Viana, o maior dividendo do dólar baixo é a vitória sobre a inflação. Com o barateamento das importações e o “efeito escudo” sobre a energia, consolida-se o cenário da segunda vertente de análise, dando ao Banco Central a margem necessária para reduzir a Selic.

Como a maior parte da dívida brasileira é interna e indexada aos juros básicos, qualquer corte na Selic representa uma economia de bilhões de reais para o Tesouro Nacional.

Em termos práticos, esse alívio financeiro real e imediato supera largamente qualquer oscilação contábil registrada no valor das reservas internacionais.

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