Como o ZSNES virou um dos emuladores mais marcantes da história

Muitos jogadores, quando queriam reencontrar seus antigos jogos de Super Nintendo favoritos no PC, abriam o ZSNES e se deparavam com o emblemático menu com a queda da neve, simplicidade nas opções e, principalmente, muita diversão por vir.
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De 1997 aos dias atuais, este era o maior sinônimo de jogar o icônico console da Big N nos computadores. Outros softwares existiam, obviamente, mas quando se discutia qualidade e compatibilidade de um emulador, logo de cara ninguém pensava em qualquer outro.
Agora, com o lançamento do Super ZSNES, toda essa nostalgia vai se misturar com o “poder de fogo” dos PCs modernos. Reescrito do zero pelos dois desenvolvedores originais, o novo emulador vem com uma infinidade de recursos atuais, com enfoque em precisão e na melhoria de vários jogos.
Porém, vemos apenas uma verdadeira homenagem a todo o legado do emulador original. Com a interface clássica modernizada, a mensagem deixada é que apenas veremos as aventuras que tanto amamos com um “toque atual”. E você sabe como surgiu e se perpetuou a lenda do ZSNES? Nós do Canaltech vamos te contar.
O mundo antes do ZSNES
Na segunda metade dos anos 1990 o mundo ainda não era tão tecnológico quanto estamos acostumados hoje em dia. Os PCs mais “avançados” suavam para abrir softwares e rodar vídeos, isso sem falar na internet lenta que doía, componentes básicos e uma cultura de “fazer caber” tudo em um gabinete doméstico.
O que isso quer dizer? Que as fabricantes tentavam, mas a época e os custos cobravam caro — isso levou muitos a vender computadores que serviam apenas para fazer cálculos, planilhas, escrever documentos e jogar o icônico Space Cadet Pinball.
Emular o Super Nintendo era um desafio, ainda mais quando se pensa que o console era muito popular entre os fãs. Apesar do PS1 ser um estouro, ele não foi acessível à grande parte do público nos seus primeiros anos.
O desenvolvedor “zsKnight”, um dos grandes responsáveis pela criação do ZSNES, já trabalhava em outro software antes. Chamado de “Super Pasofami”, ele rodava os principais games da plataforma da Nintendo a 10 FPS. O sistema sequer tinha suporte para reproduzir sons, para ter uma ideia.
Em termos técnicos, uma operação que o Super Nintendo executa a cada fração de segundo, necessitava de uma arquitetura que convertesse para a CPU do computador. Isso comprometia a eficiência, mesmo que o processador do console original tivesse uma frequência de 3,85 MHz (contra os 133 MHz dos Intel Pentium).
Não era apenas o programador que enfrentava esse desafio, mas sim centenas de outros que tentavam concluir o projeto. Afinal de contas, quem disponibilizasse um aplicativo que rodasse rápido e trouxesse um certo nível de simplicidade — que facilita o acesso dos fãs — seria uma lenda viva.
Como o ZSNES surgiu?
A partir desse ponto, dois programadores conseguiram conceber o ZSNES em 1997. Ele nasceu como um “hiperfoco” do zsKnight por programar em assembly, ao contrário dos demais desenvolvedores que tentavam as facilidades que a linguagem C oferecia.
Para ter uma ideia, o desenvolvimento em assembly permitia uma otimização maior para rodar bem o sistema, mesmo em hardwares limitados. Na época, ele não trazia a mesma velocidade do Super Nintendo, mas chegava muito próximo — o que encantou toda a comunidade e tomou o mundo.
O próprio criador sequer acredita que seu objetivo foi alcançado. Em declaração para o canal de YouTube Zophar, ele afirma que o projeto foi apenas uma consequência de sua curiosidade e nunca esperou que tomasse as proporções que tomou.
“Comecei a programar tudo em assembly — até o port de Windows, não havia uma única linha de código em C nele. Estava otimizado ao máximo. Quando comecei tudo isso, queria um emulador de Super Nintendo que pudesse jogar no máximo de desempenho possível no PC, mas eu não esperava atingir esse objetivo”, disse o desenvolvedor.
Imagine que um emulador, veloz e otimizado, pudesse rodar em computadores comuns e extremamente fracos. Ele não era a “opção perfeita”, mas foi o único que entregava diversão sem exigir que os usuários comprassem uma máquina nova. E isso, muitas vezes, vira “ouro”.
A linha do tempo do ZSNES
Confira a linha do tempo completa do ZSNES e como tudo se encaixou para criar uma verdadeira cultura em torno do emulador:
- 1990 - Lançamento do Super Nintendo
- 1997 - Projeto ZSNES foi disponibilizado ao público em outubro, em PCs que usavam DOS
- 2000 - Pela primeira vez o software chegou ao Windows, no entanto com seu código fechado
- 2001 - Teve seu código aberto por GNU General Public Licence (GPL) e recebeu diversas modificações, o que o levou ao seu ápice
- 2007 - Lançamento da versão final do programa e representou o início de sua estagnação
Interface e recursos que viraram memória afetiva
Imagine que você tinha um computador antigo, iniciava a máquina com Windows 98 — que demorava uma eternidade para carregar — e via o ícone do ZSNES na área de trabalho. As cores dos botões estampadas na tela e a promessa de horas de jogo é o que muitos encontrarão em suas memórias.
Ao abrir o software, encontrava a interface que mostrava a queda de neve e um menu simples, porém extremamente funcional. Podia abrir o arquivo da ROM, acionar os save states e recorrer a pequenas facilidades que faziam tudo rodar no seu PC como “mágica”.
Como o zsKnight era um programador geral — não apenas só “mais um” apaixonado por jogos — todo o sistema tinha um jeito próprio para a sua época, inspirado em outros. Isso fez o público se apegar ainda mais ao emulador de Super Nintendo, já que conversava por completo com a cultura de toda uma geração.
Se você pensa que “o resto é história”, cometerá um grande engano. Ao longo dos anos, o ZSNES se aprimorou cada vez mais e se tornou próximo da comunidade de várias formas. Uma delas foi através do auto-patching, com títulos que eram traduzidos apenas ao serem carregados — sem ter de baixar uma ROM modificada para isso.
Imagine algo assim nos anos 2000? Pois é, até os dias atuais algo assim é muito difícil de ser visto. Bastava ter um arquivo IPS na mesma pasta que a ROM que a magia acontecia. Depois chegou o soft-patching e muitas outras evoluções que encantavam cada vez mais uma legião inteira de jogadores.
Outro aspecto que fez o olho de muita gente brilhar foi o netplay. O recurso estava disponível ainda nas primeiras versões do emulador e permitia que até cinco pessoas pudessem jogar juntas em LAN — bastava ter mais PCs e conectá-los através da rede local.
Isso sem falar em soluções extremamente criativas para problemas que eram encontrados no software. O save state e a função de rebobinar, por exemplo, mascaravam atrasos que podiam gerar dores de cabeça para qualquer jogador desprevenido.
Nem tudo isso estava presente em 1997, mas vale notar que logo completaremos 30 anos de seu lançamento e aquilo já estava presente pelas mãos de desenvolvedores independentes. Quantos grandes estúdios e fabricantes ainda lutam para tornar certas coisas do tipo funcionais em consoles da nossa época?
O lado B do ZSNES
Nem tudo eram flores com o ZSNES, já que ele sempre foi um produto de “outra era”. Para atingir toda a velocidade e compatibilidade com os jogos, por exemplo, o projeto estava repleto de bugs e limitações — que se perpetuaram ao longo das décadas.
Como zsKnight e os demais não mexiam tanto no software, muitos preferiram alternativas mais precisas e que estavam livres de certos problemas. Na verdade, ele não é “ruim”, mas lado a lado com as demais opções modernas, ainda há falhas que nunca foram corrigidas e que botam sua usabilidade em xeque.
Por exemplo, existem diversas demonstrações públicas de brechas que permitem ROMs maliciosas que exploram os dados do PC dos usuários. Em um mundo no qual temos aplicativos de banco, redes sociais, home office com informações sigilosas de empresas no computador e muito mais, entende o risco disso?
Além disso, há vulnerabilidades como o buffer overflow e diversas outras. Contudo, não precisa banir em definitivo o ZSNES da sua vida: apenas seja consciente, tome cuidado de onde faz o download de suas ROMs e sempre evite arquivos de origem duvidosa. Aquele Super Toad World pode não ser o que parece.
Por que o ZSNES foi tão querido, mesmo sem atualizações?
Em termos simples, mesmo com problemas, o emulador de Super Nintendo conquistou o público por três grandes destaques: acessibilidade, identidade e representatividade. Em conjunto, foram essas características que lhe garantiram o status de “lenda”.
Em relação ao acesso, ele literalmente rodava em qualquer computador — seja o mais moderno possível ou o PC da Xuxa de sua respectiva época. Era só baixar e jogar, sem complicações. A disputa era até “desleal”, já que outros não alcançaram o seu patamar de desempenho por um longo período.
A identidade e representatividade se unem para mostrar como seus recursos, visual e tudo remetia à uma determinada época. Para os mais novos, traz simplicidade. Aos mais antigos, nostalgia. Os menus, ícone, sons e tudo mais representam um período distante, mas no qual muitos associamos ser “melhor”.
Retorno triunfal: o que é o Super ZSNES?
Quase 30 anos depois, os desenvolvedores retornam para trabalhar no Super ZSNES: um emulador reescrito do zero e acelerado pela GPU do usuário. A promessa é trazer um processamento e áudio mais precisos, além de imagens com uma qualidade aprimorada.
A interface é a mesma, mas os games? Agora, com o Super Enhancement Engine, diversos títulos rodarão ainda melhor e com um “poder de fogo” maior. Já disponível para Windows, Mac e Android (este último, pago), ele promete reviver os bons tempos enquanto traz experiências turbinadas para os fãs.
No entanto, ele está em estágios iniciais e não possui uma grande parte dos recursos vistos na sua contraparte mais antiga. Não há suporte, por exemplo, a jogos produzidos com apoio do chip Super FX — que simulava gráficos 3D no Super Nintendo, como é o caso de Star Fox e outros clássicos.
Nem mesmo o netplay, que uniu os jogadores nos anos 1990 e 2000, foi disponibilizado. Ou seja, trate como um projeto em desenvolvimento e que receberá melhorias conforme os devs trabalharem no software. Pode ser em um mês ou um ano, mas chegará em algum momento.
O legado do ZSNES
Mais do que apenas um emulador velho, o ZSNES simboliza como um software, comunidade e as limitações técnicas podem criar uma cultura forte. Não é à toa que, quando se pensa em um software que traga o Super Nintendo para os PCs, esse é o primeiro a surgir na mente de grande parte dos fãs.
Agora, com o surgimento do Super ZSNES, temos a prova de que a nostalgia não serve apenas para olharmos para o passado. Ela pode ser uma chance de revisitarmos clássicos e aplicar padrões atuais — sem perder a sua identidade, mesmo em relação à queda da neve do seu menu inicial.
A modernização do emblemático emulador pode ser apenas o primeiro passo para se reviver os bons tempos, com um toque aprimorado do que a tecnologia atual pode oferecer. E, quem sabe, mostrar aos devs mais novos como se faz história sem perder as suas raízes.