Copom vê inflação da guerra invadindo 2028, diminuindo margem para cortar juro

Cresceram as apostas para uma calibração de juros mais gradual ou em menor magnitude após a divulgação, nesta terça-feira (5), da ata referente à mais recente reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que cortou a taxa básica de juros, a Selic, em 0,25 ponto percentual, levando-a a 14,50%.
Na avaliação de economistas, o teor da ata está mais duro que o comunicado divulgado após a decisão, já que aprofunda detalhes da decisão e a leitura do cenário internacional e doméstico. E, pela primeira vez, a desancoragem das expectativas de inflação chega a 2028, além do horizonte relevante para avaliação da política monetária.
A ata descreve um quadro econômico que ainda não esfriou completamente, dado o mercado de trabalho aquecido e os rendimentos reais subindo acima da produtividade.
O conflito no Oriente Médio, porém, é o elemento-chave na análise. O ponto central são as dúvidas em relação à extensão, à duração e aos impactos da guerra. Se os reflexos da tensão já chegaram nos combustíveis, ainda é incerto o impacto ao longo da cadeia produtiva – incertezas essas que podem levar a continuidade de postura cautelosa do Banco Central, na avaliação de Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research.
Apesar disso, o texto traz poucos sinais sobre os próximos passos do Copom, avalia Caio Megale, economista da XP, destacando expressões como “extensão” e “ritmo” no processo de ajuste de juro “à luz de novas informações”. Para ele, isso abre margem para cortes adicionais à frente, mas “a probabilidade de uma calibração mais gradual ou de menor magnitude aumentou, uma vez que avaliamos que o cenário de inflação pode se deteriorar adicionalmente”, diz.
Desancoramento das expectativas de inflação
A ata ressalta o desancoramento adicional das expectativas de inflação, especialmente para 2028. Megale destaca que o Copom cita esse dado duas vezes na ata, o que pode abrir margem para discutir a extensão do horizonte de convergência.
Beto Saadia, economista-chefe da Nomos, comenta que essa é a primeira vez que o ano de 2028 aparece nos documentos da autoridade monetária. “Expectativas se desancorando para 2028 são uma complicação para o Copom num momento em que o comitê já cortou a Selic duas vezes com o quadro inflacionário piorando”, afirma.
Neste cenário, Comitê concluiu que, em caso de expectativas desancoradas, a postura mais adequada é a restrição monetária maior e por mais tempo. “Diante desse desancoramento adicional, o Banco Central terá menor espaço para o afrouxamento monetário pós-conflito — o ciclo de cortes de juros tende a ser menor do que o esperado antes do conflito”, afirma Sung.
No curto prazo, a inflação corrente acelerou e as expectativas para 2026 (4,9%) e 2027 (4,0%) seguem acima da meta, destaca Leonardo Costa, economista do ASA.
Juros restritivos na atividade econômica
Para Costa, o BC mantém a avaliação da desaceleração da atividade doméstica, com ênfase na contração do crédito, mesmo com mercado de trabalho apertado. Para Sung, o comitê reconhece que os juros restritivos já traz condições para cortes de juros, mas as dúvidas com os efeitos da guerra persistem.
Balanço de riscos
No balanço de riscos, o Copom detalha a preocupação com os efeitos de segunda ordem na economia a partir do choque de preços do petróleo. “A partir do momento em que os efeitos de primeira ordem, como combustíveis e fretes, começam a contaminar a cadeia produtiva, as expectativas de inflação e os salários, o impacto se torna mais duradouro. Essa é a grande preocupação levantada pelo Banco Central ao longo do comunicado”, destaca Sung.
Costa afirma que o Comitê reconheceu que a demora na resolução do conflito aumenta a probabilidade de impactos mais duradouros nas cadeiras produtivas e parte dos riscos já pode ser materializado. “Ainda assim, optou por manter o balanço de riscos para inflação equilibrados (ainda que mais elevados que o usual), reafirmando, contudo, o compromisso firme de combater os efeitos de segunda ordem do choque do petróleo e seus derivados”, diz Costa.
Projeções
De acordo com Megale, da XP, a projeção da instituição ainda inclui dois cortes de 0,50 p.p. nas reunião de junho e agosto, mas esse cenário está “se tornando cada vez menos provável”. Por enquanto, a XP espera Selic em 13,5% ao fim de 2026.
Costa, do ASA, mantém a projeção de mais um corte de 0,25 p.p. na reunião de junho, com Selic de 13,25% ao final de 2026, mas com risco de terminar acima disso.
Rafaela Vitoria, economista-chefe do Inter, projeta cortes de 0,25 p.p. e Selic em 12,75% no final do ano. “Mas o risco fiscal ainda é maior que o risco da alta do petróleo, e uma pausa pode ser necessária se a atividade não desacelerar”, afirma.
O mais recente Boletim Focus, que traz as expectativas do mercado, aponta Selic em 13% para 2026, 11% em 2027, 10% em 2028 e, pela primeira vez, chegou a 10% em 2029.
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