Dólar abaixo de R$ 5 impulsiona turismo e cria janela para viagens ao exterior

A queda do dólar abaixo de R$ 5, patamar que não era atingido há mais de dois anos, começa a abrir novas oportunidades de turismo para brasileiros que desejam fazer viagens internacionais. Com o real mais valorizado, viajar para fora fica mais barato, o que tende a estimular a demanda por destinos internacionais e até intercâmbios. Ao mesmo tempo, o Brasil também ganha competitividade para turistas estrangeiros, especialmente na América Latina, criando um cenário de via dupla para o turismo, conforme especialistas ouvidos pelo InfoMoney.
Isso porque, na prática, o câmbio mais favorável amplia o poder de compra do brasileiro no exterior, um dos principais gatilhos para o setor, segundo Pedro Zava, especialista em investimentos e manager da AG Immigration. “A valorização do real tem impacto direto no planejamento das famílias. Viajar, estudar ou iniciar um processo de mudança para os Estados Unidos se torna mais acessível, porque praticamente todos os custos estão atrelados ao dólar”, afirma.
Esse movimento reduz desde o custo de passagens, como de hospedagens e despesas no destino, tornando viáveis viagens que antes estavam fora do orçamento. Mas Zava lembra que o cenário geopolítico também tem reflexos nas decisões. “Quando o dólar cai, o real fica mais forte. Isso traz efeitos positivos práticos como produtos importados mais baratos. Mas entra também nessa conta os combustíveis, que nesse momento não sente efeitos positivos por causa da crise do petróleo causada pela guerra no Oriente Médio. Tudo isso impacta também os custos”, afirma.
Demanda pode crescer
Segundo o vice-presidente de vendas da CVC, Emerson Belan, a empresa já sentiu um aumento de procura de 20% desde o início dessa baixa do dólar. “Com certeza essa baixa do valor da moeda ajuda muito o brasileiro a realizar o sonho de conhecer outro país, seja na América do Sul, Central ou até Europa”, disse o executivo, frisando que os destinos internacionais já respondem por 34% das vendas, ficando bem acima do ano passado. “A questão geopolítica fica mais concentrada às regiões do conflito, o que não impede aumento para outros destinos”.
Mais do que gerar um boom imediato, o câmbio mais baixo tende a destravar uma demanda reprimida. Segundo a Associação Brasileira de Agências de Viagem (Abav), há uma expectativa de retomada do interesse por viagens internacionais, especialmente entre consumidores que aguardavam um cenário mais favorável.
“O que vemos é um aumento da confiança do consumidor. A queda do dólar é percebida como um momento estratégico para planejar viagens”, diz Ana Carolina Medeiros, presidente da Abav Nacional.
Para Christina Bicalho, vice-presidente do STB, especializado em estudos internacionais, o movimento do dólar também pode antecipar decisões para estudos. “A queda do dólar incentiva quem já estava planejando a fechar contratos agora, aproveitando o câmbio mais baixo”, explica.
Destinos e estratégias
Com o câmbio mais favorável, destinos tradicionais voltam ao topo das buscas. Segundo a Abav, América do Norte, Caribe e Europa tendem a ganhar força, com destaque também para países com câmbio competitivo, como Turquia e Egito.
Dados do Airbnb reforçam essa tendência, uma vez que houve aumento de cerca de 20% nas buscas de brasileiros por viagens internacionais na Semana Santa de 2026, com destaque para cidades europeias como Madri, Lisboa e Barcelona.
Nesse cenário, a estratégia passa a ser essencial, segundo especialistas. Apesar do quadro mais positivo, muitos alertam para a volatilidade do câmbio, o que exige planejamento. Por isso, a recomendação do setor é evitar decisões impulsivas e adotar uma estratégia gradual.
“A compra de moeda pode ser feita aos poucos, diluindo oscilações. Já pacotes parcelados em real ajudam a travar preços e evitar surpresas”, afirma a presidente da Abav.
Especialista em câmbio, a Wise também reforça a necessidade de estratégia e sugere compras fracionadas, com uso de ferramentas como alertas de câmbio para aproveitar melhores momentos de compras de moedas.
Helene Romanzini, líder de produto da Wise no Brasil, explica que “ao converter R$1.000 na conta para dólar em 14/04/2026, o consumidor receberá US$ 190,64 e pagará um total de R$ 48,10 em imposto e tarifa total inclusos no valor da transação, sendo R$ 14,78 de tarifa e R$ 33,32 de IOF de 3,5%. Todos os valores precisam ser considerados.”
Na Wise, o consumidor também pode utilizar o Rende+, solução de investimento em dólar, euro e libra. Assim, ao converter R$ 1.000 em dólar com o Rende+ ativo em 14/04/2026, o consumidor receberá US$ 196,92 e pagará um total de R$ 17,17 em imposto e tarifa total inclusos no valor da transação, sendo R$ 6,56 de tarifa e mais R$ 10,81 de IOF de 1,1%. “Por se tratar de uma moeda investida, o usuário paga menos IOF na hora de converter, garante rendimento até o dia da sua viagem e pode ser gasto com o cartão diretamente no dinheiro investido de forma automática”, acrescenta.
Brasil segue competitivo
Mesmo com o estímulo às viagens internacionais, o Brasil não perde relevância no cenário turístico. Segundo dados do Airbnb, destinos como Rio de Janeiro, Florianópolis e cidades do litoral seguem em alta entre turistas da América Latina, especialmente argentinos e colombianos. Isso mostra que o país continua competitivo, especialmente em viagens regionais.
O efeito do dólar mais baixo, portanto, não é linear, de acordo com os especialistas:
De um lado:
- mais brasileiros viajando para o exterior
- aumento da demanda por pacotes internacionais
- pressão sobre o turismo doméstico
De outro:
- fortalecimento do turismo receptivo
- manutenção da atratividade do Brasil na região
- diversificação do fluxo de viajantes
Leia Mais: Em um mês de guerra, conflito com Irã esvazia hotéis e derruba turismo em Dubai
Janela de oportunidade
Apesar do momento favorável, o cenário pode mudar. “O mercado projeta volatilidade no segundo semestre, com o dólar podendo voltar para níveis acima de R$ 5,30”, alerta Pedro Zava. Isso reforça a percepção de que o atual patamar funciona como uma janela de oportunidade, especialmente para quem já planejava viajar.
Intercâmbios
O intercâmbio não costuma ser uma escolha impulsiva, segundo a vice-presidente do STB. Mas a queda do dólar pode sim ser um incentivo para quem está buscando um programa de estudos nos próximos meses. “Antecipar o contrato para o momento de melhor câmbio, em geral, pode ser bom porque os programas são tabelados na moeda local do país e o valor é pago pelo cliente em real, com conversão de câmbio STB correspondente ao dia em que o contrato é fechado. Dessa forma, a queda do dólar pode representar uma oportunidade de economia para quem já está pesquisando”, explica.
Christina Bicalho afirma ainda que a demanda em 2026 continua firme. “No entanto, eventos como a Copa do Mundo tendem a impactar custos importantes de um intercâmbio, como as passagens aéreas e acomodações. O que acontece em momentos de dólar em alta é que outros destinos, como Canadá, África do Sul, Malta e Austrália, tendem a se destacar como opções que oferecem bom custo-benefício comparado a destinos mais tradicionais como os Estados Unidos e até mesmo Inglaterra, especialmente pela oportunidade de conciliar o estudo com a possibilidade de trabalhar”, explica.
Segundo ela, é esperado que os programas como High School e férias escolares para adolescentes tenham um aumento de vendas entre abril e maio. São programas que têm vagas limitadas e que acontecem entre os meses de junho, julho e agosto.
Um programa de High School J1 atinge um valor aproximado de US$ 9 mil por semestre. Já um curso de idiomas de duas semanas, com 20 aulas semanais em San Diego, na Califórnia, sai por US$ 518, sem acomodação.
“O intercâmbio é um projeto que exige planejamento, por isso, é importante que o interessado saiba que pode se beneficiar da queda do dólar ao fechar uma experiência internacional por conta da economia com passagens aéreas, seguro-viagem e até mesmo no valor do curso. No entanto, é fundamental que essa seja uma decisão que leve em conta muitos outros fatores além do custo-benefício”, afirma Bicalho, acrescentando que uma avaliação junto com o estudante para que se encontre um programa que se adeque ao orçamento e objetivos é fundamental. “E vale lembrar que hoje já existem muitas formas de pagamento, o que pode incluir parcelamentos por boleto e até mesmo financiamento bancário em até 24 vezes”.
Novo ritmo
A queda do dólar não muda apenas preços, ela altera o comportamento do consumidor, com viagens saindo do papel, destinos sendo reavaliados e o planejamento ganhando protagonismo, segundo os especialistas. No fim, o turismo entra em um novo ritmo, cada vez mais sensível ao câmbio, mas também exigindo mais estratégia e cada vez mais conectado ao cenário econômico global.
The post Dólar abaixo de R$ 5 impulsiona turismo e cria janela para viagens ao exterior appeared first on InfoMoney.