Europa mudou a chave para o GNL após invasão russa; então, veio a guerra no Irã

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Europa mudou a chave para o GNL após invasão russa; então, veio a guerra no Irã

Após a crise energética causada pela guerra na Ucrânia, os países europeus fizeram uma guinada do uso do petróleo russo para compras de gás natural liquefeito (GNL), especialmente da Noruega e Catar. Agora, com a interrupção de parte dos envios do Oriente Médio por conta do fechamento do Estreito de Ormuz, essa estratégia se tornou um novo risco.

Num artigo para o Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR, na sigla em inglês), a pesquisadora sênior de políticas públicas Agathe Demarais destaca que o GNL responde hoje por quase metade das importações de gás da UE, ante uma proporção de apenas 20% em 2021.

Mas há dúvidas agora sobre a continuidade desse processo. Antes do início da guerra no Irã, a expectativa da UE era que novas ofertas de GNL, entrando neste ano e em 2027, ajudassem o bloco a finalmente se livrar por completo dos hidrocarbonetos russos. Mas o dano por ataques iranianos ao complexo Ras Laffan, no Catar, o maior do mundo, trouxe um forte grau de incerteza.

Situado na costa norte do Catar, Ras Laffan levou três décadas para ser construído e cobre uma área aproximadamente três vezes maior que Paris. O local embarca rotineiramente cerca de um quinto da oferta global de GNL.

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Em meados de março, conta a pesquisadora, mísseis iranianos destruíram dois de seus 14 trens de liquefação e uma de suas duas unidades de conversão de gás em líquidos — eliminando 17% da capacidade de produção do complexo e 3% da produção global de GNL. Ela explica que não há solução rápida para retomar os embarques. A liquefação exige tratamento criogênico a -162°C, em uma infraestrutura que levará anos para ser reconstruída.

Segundo Demarais, os desdobramentos de Ras Laffan serão enormes para a Europa. A QatarEnergy, que opera a instalação, declarou força maior para suspender algumas entregas. Somadas às interrupções entre outros produtores de GNL do Golfo, as ofertas globais de GNL agora estão cerca de 20% abaixo do nível de um ano atrás.

“À medida que empresas europeias, sul-coreanas e japonesas competem para garantir embarques limitados, os preços à vista atingiram o nível mais alto desde a crise energética de 2022–2023. A dor econômica será desigual dentro do bloco, com Itália e Alemanha mais duramente afetadas”, detalha.

A italiana Edison está entre as empresas cujos contratos com a QatarEnergy foram suspensos. A Alemanha não depende do GNL qatari, mas está exposta ao choque de preços porque o gás responde por quase 30% de sua matriz energética.

A especialista diz que a perspectiva de longo prazo é ainda mais sombria. Antes da guerra, uma onda de novos projetos — especialmente no Catar e nos EUA — parecia pronta para elevar a oferta global de GNL em 20% em 2026 e 2027. Havia tantos projetos entrando em operação simultaneamente que especialistas do setor temiam um excesso de oferta.

“Hoje, esse excesso parece altamente improvável. A Agência Internacional de Energia projeta que a oferta global de GNL entre 2026 e 2030 ficará cerca de 15% abaixo das previsões anteriores à guerra, com a maior parte dessa lacuna concentrada em 2026–2027”, relata.

A pesquisadora do ECFR diz ainda que, além do impacto no Catar, a limitada capacidade de engenharia e as tarifas dos EUA são gargalos adicionais. Poucas empresas — Bechtel (EUA), Chiyoda (Japão), JGC (Japão) e Technip Energies (França) — reúnem o know-how técnico, o histórico e a robustez de balanço necessários para entregar projetos que podem custar dezenas de bilhões de dólares.

A QatarEnergy estima que os reparos em Ras Laffan levarão de três a cinco anos, ocupando uma capacidade de engenharia já escassa e atrasando projetos greenfield em todo o mundo. Enquanto isso, os projetos nos EUA enfrentam um obstáculo autoimposto: tarifas americanas sobre importações de equipamentos especializados, como o aço de níquel 9% de grau criogênico, estão elevando os custos de novas plantas de GNL. Em conjunto, essas pressões apontam para uma entrega mais lenta e mais cara das ofertas de GNL nas quais a Europa vinha apostando.

Opções para a UE

Demarais prevê que a dependência do GNL americano vai se aprofundar, uma vez que só empresas dos EUA podem preencher a lacuna deixada pelo Catar na velocidade que a Europa precisa — e elas já fornecem quase 60% das importações de GNL da UE. “Os otimistas podem ver nisso uma oportunidade de suavizar as relações com a Casa Branca ao se comprometer a comprar mais GNL dos EUA, algo que provavelmente aconteceria de qualquer forma. Uma leitura mais sóbria é que o presidente americano Donald Trump usará a dependência europeia em relação ao GNL americano para arrancar concessões do bloco”, alerta.

Por outro lado, à medida que o mercado de gás se aperta, podem crescer os apelos para que a UE alivie as sanções sobre hidrocarbonetos russos. No âmbito do RePowerEU, as importações de GNL russo devem ser gradualmente encerradas; uma proibição de contratos de GNL de curto prazo entrou em vigor em 25 de abril, e as entregas sob contratos de longo prazo serão proibidas a partir de janeiro de 2027.

“O conflito no Irã pode complicar esse plano. A Eslováquia há tempos pressiona por um adiamento desse cronograma, e a pressão do setor industrial pode empurrar os governos da Itália e da Alemanha na mesma direção. Os riscos de fragmentação na UE são elevados, já que outros grandes Estados-membros, como França (graças à energia nuclear) e Espanha (graças às renováveis), estão em grande parte protegidos da alta dos preços do gás.”

A terceira possibilidade citada tem a ver com as perspectivas da indústria europeia. Um relatório de 2024 do ex-presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, apontou os altos custos de energia como um desafio central para a indústria do continente. “Dois dados ajudam a dimensionar esse desafio. Primeiro, empresas industriais europeias pagam de quatro a cinco vezes mais do que suas concorrentes americanas pelo gás. Segundo: os preços de eletricidade para indústrias intensivas em energia são, em média, o dobro dos praticados nos EUA e 50% mais altos do que na China e na Índia”, compara.

“O choque do GNL tende a ampliar essa diferença, sobretudo para setores altamente intensivos em energia, como o de químicos, fertilizantes e aço. Isso deixará a indústria da UE em desvantagem ainda maior em relação às rivais americanas e chinesas.”

Na avaliação da pesquisadora, quando o estreito de Ormuz reabrir, as manchetes vão mudar de foco. O problema da Europa com o GNL não. Ou seja, a estratégia que Bruxelas desenhou em 2022 para escapar do gás russo agora está presa na fila de reparos de Ras Laffan.

“Isso dará a Washington e Moscou uma nova margem de manobra sobre a Europa, ao mesmo tempo que escurece ainda mais um cenário industrial já sombrio. No médio e longo prazo, a opção óbvia para o bloco será redobrar as apostas em redução da demanda, ampliar renováveis e acelerar a integração das redes elétricas. Mas, no curto prazo, os europeus não têm uma saída fácil do estrangulamento do GNL.”

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