Por que a guerra no Irã deixa a sua comida mais cara?

A escalada do conflito envolvendo o Irã e outras nações do Oriente Médio já afeta diretamente o bolso do consumidor brasileiro, especialmente nas gôndolas dos supermercados. A pressão inflacionária tem origens complexas e envolve canais de transmissão como a cotação do petróleo e seus derivados, o custo dos fertilizantes importados e a elevação dos preços globais das safras.
O impacto da energia e dos transportes não demorou a aparecer nos indicadores econômicos do país. Em março de 2026, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) avançou 0,88%, impulsionado exatamente pelos grupos de transportes e alimentação, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Com isso, o mercado financeiro vem revisando as expectativas para o custo de vida neste ano. De acordo com o Boletim Focus do Banco Central, a projeção da inflação oficial ao fim de 2026 subiu para 4,71%. No início do ano, antes do conflito, a projeção estava abaixo de 4%.
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O peso do diesel e dos fretes na cadeia produtiva
O encarecimento da comida começa pelo transporte rodoviário, fortemente dependente do óleo diesel. Como a distribuição das safras brasileiras até os centros consumidores é feita, basicamente, por meio das rodovias, o combustível mais caro faz com que o produto final chegue com um preço mais alto às prateleiras.
Marcello Brito, diretor acadêmico da Fundação Dom Cabral (FDC) Agroambiental, explica que o preço do diesel subiu acima de 30%, o que afeta toda a estrutura de custos. “Se imaginarmos todos os insumos necessários para produzir qualquer coisa, desde alface até soja, tudo chega ao produtor de caminhão ou caminhonete, seja ele pequeno, médio ou grande. E, via de regra, estes veículos usam diesel, gasolina, gás, todos eles sofrem impacto”, afirma.
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Além do transporte das mercadorias prontas, a produção agrícola dentro das fazendas utiliza máquinas e implementos que também dependem do diesel, criando um impacto direto ainda durante o plantio e a colheita.
Fora das fronteiras brasileiras, a logística global também sofre o baque. Os seguros de navios, por exemplo, encareceram independentemente da rota, segundo Brito, e os preços dos fretes marítimos internacionais chegaram a dobrar em alguns trechos, pressionando a importação de insumos que o Brasil necessita.
A dependência de fertilizantes importados
Outro pilar de sustentação para a alta dos alimentos é a forte dependência externa na nutrição do solo. O Brasil importa, em média, 85% dos fertilizantes que utiliza. Esses insumos são derivados de matérias-primas como enxofre e amônia, diretamente atreladas à cadeia do gás natural.
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Mauro Osaki, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), explica que o Oriente Médio responde por quase 40% dos adubos nitrogenados adquiridos pelo mercado brasileiro, o que engloba diretamente nações envolvidas em tensões na região, como Irã, Catar, Arábia Saudita e Bahrein.
O cenário de incerteza agrava as dificuldades de aquisição. A Rússia, que historicamente é uma grande fornecedora mundial de insumos, também enfrenta o peso de restrições econômicas de sua própria guerra, limitando e encarecendo as rotas de fornecimento de ureia. Osaki ressalta que esse bloqueio e a alta generalizada encarecem consideravelmente a operação de produção.
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Culturas mais afetadas e os reflexos no prato
A rentabilidade do campo está pressionada e as culturas mais prejudicadas pelo choque de custos dos nitrogenados não são apenas produtos de exportação, mas alimentos base. Segundo Osaki, culturas que dependem intensivamente desses adubos químicos sofrerão o maior impacto e repasse de valores.
Esse reflexo de alta, no entanto, é global. Felippe Serigati, pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV), aponta que as fazendas do hemisfério norte entraram na primavera e iniciaram o plantio dependendo de insumos inflacionados.
A consequência será uma inevitável contração e reprecificação da produção agropecuária mundial. Com custos de produção elevados em todo o planeta, os valores das commodities negociadas internacionalmente sobem em bloco, afetando o consumidor interno e externo.
Em suas próprias palavras, “não tem como o milho tá mais barato de um lado do que no outro”, consolidando que a elevação do custo de vida será sentida na mesa de todas as famílias.
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