Por que a Kinea vê virada no mercado de crédito — e começa a se posicionar; entenda

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Por que a Kinea vê virada no mercado de crédito — e começa a se posicionar; entenda

O mercado brasileiro de crédito privado vive um momento de abertura de spreads, mas um dado estrutural sugere que o ciclo de turbulência pode ser mais curto do que o de 2023: a indústria está mais subalocada do que estava naquele período.

Fundos dedicados à classe, que historicamente mantinham entre 73% e 79% do patrimônio alocado em crédito, viram esse percentual recuar de forma significativa a partir de 2024 — quando o volume de aportes superou a capacidade dos gestores de absorver novos papéis.

A leitura é da Kinea Investimentos, uma das maiores gestoras de crédito privado do país, com aproximadamente R$ 80 bilhões sob gestão.

Para a casa, a subalocação funciona como um amortecedor natural: em vez de vendedores forçados — obrigados a desfazer posições a qualquer preço —, os gestores estão em posição de compradores, o que tende a conter a abertura adicional de spreads.

É o que avalia Ivan Fernandes, sócio e gestor de crédito privado da Kinea, em entrevista à Semana da Renda Fixa da XP, programa apresentado por Maria Luisa Paolantoni, analista de renda fixa do Research da XP.

“Entrou mais dinheiro do que os gestores conseguiram comprar em crédito privado”, afirmou Fernandes. A consequência, segundo ele, é que o comprador hoje tem o luxo de identificar ativos deslocados e alocar capital — ao contrário de quem precisa vender a qualquer custo.

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O segundo pilar de sustentação identificado pela Kinea é a saúde financeira dos emissores. Análise da gestora sobre as principais empresas do mercado aponta margem de Ebitda em torno de 26%, levemente acima da média histórica. A alavancagem está no ponto médio histórico e a liquidez, embora um pouco abaixo da média, não representa distorção relevante. acrescenta.

“Os fundamentos das métricas de crédito das empresas estão bastante saudáveis para o contexto histórico. Não estão super bons, mas não estão super ruins”

— Ivan Fernandes, sócio e gestor de crédito privado da Kinea.

Metodologia de análise e gestão de risco

A metodologia da Kinea para avaliação de crédito é construída sobre análise fundamentalista intensiva. A equipe — composta por 11 profissionais, entre eles cinco analistas de crédito e dois especialistas em ciência de dados — dedica mais de 95% do tempo ao estudo de indústrias e empresas.

Para cada crédito levado a comitê, são elaborados modelos de fluxo de caixa com cenário-base, downside e tabelas de sensibilidade cruzando as principais variáveis operacionais e financeiras.

A taxa Selic entra nesses modelos com premissas deliberadamente conservadoras. Até recentemente, a Kinea adotava 15% na perpetuidade como referência de trabalho. “Eu prefiro não arriscar muito e comprar créditos onde, mesmo que eu fique na Selic em 15, esse crédito vai conseguir me pagar”, disse Fernandes.

A lógica é simples: quanto maior a taxa de juros, mais a despesa financeira consome o caixa operacional das empresas — especialmente as que captam em CDI+.

O processo de governança interna inclui um comitê de crédito semanal, realizado toda sexta-feira, com a participação dos principais seniores da casa: o fundador Márcio Verri, o CIO Marco Freire, o CFO Alê Lopes, o chefe de risco Ricardo Sacá e o próprio Fernandes.

“É uma discussão bastante intensa. Não é para gringo ver”, disse o gestor, ressaltando o nível de exigência das revisões.

O monitoramento contínuo é complementado por robôs com inteligência artificial que rastreiam notícias sobre os nomes em carteira e por um modelo quantitativo baseado na metodologia de Merton — que estima a probabilidade de default de empresas listadas a partir do market cap e da volatilidade das ações.

O resultado prático nos últimos oito meses foi a ausência de exposição a qualquer um dos emissores que protagonizaram os principais eventos negativos do ciclo — entre eles Americanas (AMER3), Raizen, Cosan (CSAN3), Aegea e CSN (CSNA3).

Fernandes atribuiu o desempenho à combinação entre a qualidade da equipe, o rigor do comitê e as ferramentas de alerta precoce de deterioração de crédito.

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