Real abaixo de R$ 5 não esfria apetite de estrangeiros por Bolsa e renda fixa

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Real abaixo de R$ 5 não esfria apetite de estrangeiros por Bolsa e renda fixa

A valorização do real que levou o dólar a menos de R$ 5,00 nesta semana pela primeira vez desde março de 2024 não deve afugentar os investidores estrangeiros dos mercados brasileiros, avaliam especialistas.

Apenas neste mês, os estrangeiros já trouxeram para a Bovespa R$ 11,5 bilhões, elevando a entrada no ano para R$ 65,4 bilhões, superando as entradas de anos inteiros desde os R$ 119,8 bilhões de 2022. Somente na quinta-feira passada, entraram na Bovespa R$ 8,2 bilhões, R$ 6 bilhões dos quais para a oferta pública de ações da Neoenergia na bolsa, o que ajudou a derrubar o dólar. E há ainda as entradas para investimentos em renda fixa, diante do juro de 14,75%, o segundo maior do mundo.

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O que está acontecendo com a taxa de câmbio é a consequência desse volume grande de investidores vindo para o Brasil, afirma Luiz Fernado Figueiredo, ex-diretor de Política Monetária do Banco Central e membro do conselho consultivo da Jubarte Capital. “Ela está ficando apreciada por conta do interesse pelo investimento aqui, que tem sido grande, e muito em função de uma diversificação a partir dos Estados Unidos, e mais recentemente pelo Brasil estar muito longe desses conflitos todos”, afirma Figueiredo, numa referência à guerra no Irã.

Ele lembra que o Brasil é exportador de petróleo e essa valorização do produto acaba beneficiando o Brasil, diferentemente de outros países que dependem da importação da commodity. “Claro que há um custo em inflação mais alta pelo reajuste dos combustíveis, mas o que vemos é um aumento do investimento no Brasil mais por razões externas”, explica. Segundo ele, o Brasil está estrategicamente melhor colocado que muitos países emergentes diante da guerra, mas menos por razões locais.

Para ele, esse interesse internacional pelo Brasil se explica pelo fato de o país, em termos relativos, estar melhor em um mundo que não está num ambiente muito tranquilo. “A coisa é parecida com uma competição de bruxas, a menos feia ganha, e escolheram a gente”, ironiza.

Ele considera que o cenário local pode começar a pesar mais dependendo dos desdobramentos da eleição presidencial. “Se tiver o Flávio (Bolsonaro) continuando a subir e liderando as pesquisas, e como ele é visto como um candidato mais como pró-mercado, que levaria a mais ajuste fiscal e reformas econômicas, os mercados podem melhorar”, afirma. “Mas o que está dominando hoje é a questão do Irã, e parece que isso vai demorar um tempinho mais para acontecer”.

Luciano Telo, executivo-chefe de investimentos do UBS Wealth Management no Brasil, diz que não acredita que o real nesses níveis mude o apetite do estrangeiro. O estrangeiro que entra no país busca, sobretudo, um local para investir seus recursos e se beneficiar dos juros elevados da renda fixa, além do potencial da bolsa no momento em que a aversão ao risco diminuir. “Ele apenas precisa que o real não se desvalorize de forma significativa”, afirma.

No entanto, acrescenta Telo, não há percepção de sobrevalorização do real nesses níveis. “A moeda, portanto, não tem barrado o fluxo”, afirma. “Seguimos recebendo forte interesse do mercado externo, que pode inclusive se intensificar caso haja uma resolução mais rápida da guerra no Irã”, conclui.

O principal motor para os investimentos não é o real em si, mas o ciclo global do dólar, afirma Fábio Murad, Sócio e Fundador da Ipê Avaliações. Quando o dólar enfraquece no mundo, o capital busca risco e entra em emergentes como o Brasil; quando se fortalece, o fluxo retorna aos EUA. Por isso, o real valorizado não afasta automaticamente o estrangeiro, ele só deixa de atrair quando o ganho cambial esperado já foi capturado.

Nas ações, o efeito é misto, afirma Murad: um real mais forte pode prejudicar exportadoras, mas melhora o ambiente macro ao reduzir inflação e juros, o que favorece valuations das empresas. Na renda fixa, o câmbio é ainda mais decisivo, o fluxo entra quando há juros altos e expectativa de valorização da moeda, mas perde força quando esse movimento já aconteceu. Já o investimento direto responde mais à confiança institucional e ao crescimento do país do que ao câmbio de curto prazo.

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