Usar o celular logo depois de acordar faz mal? Entenda o que dizem os cientistas

Para muita gente, o celular é a primeira coisa vista ao acordar, seja para desligar o despertador, checar mensagens ou dar uma rápida olhada nas redes sociais. Esse hábito parece inofensivo, mas especialistas alertam que usar o celular logo depois de acordar faz mal, por interferir diretamente no funcionamento do cérebro nas primeiras horas do dia.
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A forma como você começa a manhã tem impacto direto no seu nível de energia, foco e até na ansiedade ao longo do dia. E a ciência mostra que o uso do celular nesse momento pode atrapalhar processos naturais importantes do organismo.
O que acontece no cérebro ao acordar
Ao despertar, o cérebro passa por uma transição gradual do sono para o estado de alerta. Esse processo envolve mudanças nas ondas cerebrais e na liberação de hormônios.
Segundo o psiquiatra Marcelo Heyde, professor do curso de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), “o problema real é quando o celular contra a transição natural entre o sono e o despertar”. Ele explica que o uso imediato interfere nesse processo e "pode mudar a transição das ondas cerebrais de forma abrupta”.
Além da interrupção do ritmo natural, o conteúdo consumido também influencia o estado mental.
“A luz do celular e a interação em redes sociais já ativam um estado de alerta e ansiedade muito antes e muito mais intenso que o esperado”, afirma Heyde.
Esse impacto tem base biológica. De acordo com um estudo publicado na National Library of Medicine (2021), os níveis de cortisol (hormônio ligado ao estresse) já são naturalmente mais altos nesse primeiro período, como parte do processo de “ativação” do cérebro após o sono, o que explica por que você é mais ansioso de manhã.
Ou seja, o organismo já está preparado para acordar em estado de alerta. Quando o celular entra nesse momento, ele pode intensificar ainda mais esse efeito.
Impactos na ansiedade e no foco
Começar o dia consumindo redes sociais pode amplificar a ansiedade e prejudicar a concentração desde cedo.
Heyde destaca um dos principais fatores por trás disso: “a pessoa tem o receio de perder qual é o assunto do momento na internet, o que gera ansiedade”. Esse fenômeno é conhecido como FOMO (fear of missing out).
Outro comportamento comum é o chamado doomscrolling, quando a pessoa passa longos períodos consumindo conteúdos curtos e superficiais.
Segundo o psiquiatra, isso “interfere na capacidade de se manter o foco”, afetando diretamente a produtividade ao longo do dia.
Diferente de meios tradicionais como rádio ou televisão, as redes sociais apresentam conteúdos de forma aleatória, o que torna a experiência mais dispersiva.
Hormônios e ciclo biológico também são afetados
Além do comportamento, o uso do celular logo ao acordar impacta processos fisiológicos importantes.
Heyde explica que “o uso de celular de forma inadvertida torna esse pico [de cortisol] com duração e intensidade aumentadas de forma aleatória”.
Além disso, o consumo contínuo de conteúdos pode alterar o funcionamento da dopamina, influenciando atenção, motivação e humor.
Outro ponto importante envolve o ciclo circadiano, o relógio biológico que regula sono, fome e energia ao longo do dia.
Um estudo publicado na revista Psychoneuroendocrinology mostra que a ansiedade matinal está diretamente ligada a esse ciclo. Durante a noite, a resposta ao estresse tende a diminuir, mas, em pessoas mais ansiosas, esse descanso pode não ser completo. Como resultado, o estresse se acumula e é liberado ao acordar.
Se o primeiro estímulo do dia já for intenso (como redes sociais ou excesso de informação), esse quadro pode se agravar.
Produtividade começa na primeira hora do dia
Outro ponto a se considerar é que a forma como você usa o tempo logo após acordar pode definir o restante do dia.
Segundo Heyde, “quanto antes for o uso, e maior for o tempo, pior é a produtividade”.
Ele explica que esse comportamento, especialmente ligado às redes sociais, pode comprometer a capacidade de realizar tarefas mais complexas.
O especialista ainda compara esse padrão a um indicador de uso compulsivo: começar o dia com o celular pode ser um sinal de maior dependência, semelhante ao hábito de fumar logo ao acordar.
Então usar o celular logo depois de acordar pode parecer um hábito pequeno, mas seus efeitos são significativos. A boa notícia é que pequenas mudanças na rotina já podem reduzir esses impactos. Confira maneiras pouco convencionais de controlar seu "vício em celular".